Se Voltassem Hoje
Se voltassem hoje ao mar aberto,
os homens que o mundo quiseram cruzar,
não seguiriam estrelas no deserto...
veriam plásticos a flutuar.
As velas abertas à vitória,
o peito cheio de ambição,
encontrariam o fim da glória
num oceano sem perdão.
Quem deu ao mar esta solidão?
Quem trocou o azul por resignação?
Quem roubou a voz dos avós?
Quem pintou de cinzento o azul?
Se o mundo foi feito para nós,
porque o deixamos sem luz?
Ainda há vento nas caravelas,
ainda há tempo para voltar.
O mesmo mar, por entre estrelas,
ainda nos pode perdoar.
As gaivotas contam menos histórias,
os peixes já não sabem voltar.
Há redes onde antes havia memórias,
há fumo onde aprendemos a navegar.
O mapa traça o mesmo rumo
mas mudou a direção.
Não foi o mar que virou fumo
foi a nossa geração.
Não herdámos a Terra dos antigos:
pedimo-la aos que ainda estão por vir.
Nenhum porto tem rotas sem perigos
para quem já não sabe mais partir.
Quem roubou a voz dos avós?
Quem apagou o brilho do luar?
Se o mar foi feito para nós,
talvez ainda saibamos voltar.
Ainda há vento nas caravelas,
ainda há tempo para voltar.
O mesmo mar, por entre estrelas,
ainda nos pode perdoar.
Porque o mar não precisa de nós.
Somos nós que precisamos do mar.