Se Voltassem Hoje

Alexandre Reis
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Se voltassem hoje ao mar aberto, os homens que o mundo quiseram cruzar, não seguiriam estrelas no deserto... veriam plásticos a flutuar. As velas abertas à vitória, o peito cheio de ambição, encontrariam o fim da glória num oceano sem perdão. Quem deu ao mar esta solidão? Quem trocou o azul por resignação? Quem roubou a voz dos avós? Quem pintou de cinzento o azul? Se o mundo foi feito para nós, porque o deixamos sem luz? Ainda há vento nas caravelas, ainda há tempo para voltar. O mesmo mar, por entre estrelas, ainda nos pode perdoar. As gaivotas contam menos histórias, os peixes já não sabem voltar. Há redes onde antes havia memórias, há fumo onde aprendemos a navegar. O mapa traça o mesmo rumo mas mudou a direção. Não foi o mar que virou fumo foi a nossa geração. Não herdámos a Terra dos antigos: pedimo-la aos que ainda estão por vir. Nenhum porto tem rotas sem perigos para quem já não sabe mais partir. Quem roubou a voz dos avós? Quem apagou o brilho do luar? Se o mar foi feito para nós, talvez ainda saibamos voltar. Ainda há vento nas caravelas, ainda há tempo para voltar. O mesmo mar, por entre estrelas, ainda nos pode perdoar. Porque o mar não precisa de nós. Somos nós que precisamos do mar.