O Universo Nunca Escreveu o Manual

Alexandre Reis
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Passei metade da vida à procura de um padrão, como se, em cada medida, o caos pedisse perdão. Dei nomes a cada estrela, medi o céu sem parar, mas nunca houve capela que ensinasse a respirar. Talvez o engano não tenha sido cair. Talvez fosse o plano de um chão p'ra sempre existir. O universo nunca escreveu o manual. Nunca jurou um final feliz. Nunca deixou nenhum sinal de que o bem do mal é juiz. Fomos nós que fitámos com desatino, tanto tempo, a sós, até lhe chamarmos destino. Construí futuros como quem escreve código, fingindo-os bem seguros de um destino caótico. Todo o plano preciso morreu antes de nascer. Mas cada improviso me fez florescer. Hoje vejo a caminhada: nenhum mapa é bastante. É a estrada que constrói o viajante. A bússola aponta Norte. O coração, à deriva. Não sei quem decide a sorte. Só sei que escolho a vida. O universo nunca escreveu o manual. Nunca assinou garantias. Não nos trouxe um ritual, nem mapas, nem profecias. Somos nós que escrevemos no rodapé, e damos-lhe a nossa voz, num livro sem fim e sem fé. Talvez Deus exista, distante, talvez o vazio nos consome. Talvez o infinito, gigante, nem saiba o nosso nome. Mas, por alguns segundos, átomos que nasceram no peito de estrelas defuntas, aprenderam a fazer perguntas. E isso... talvez chegue. O universo nunca escreveu o manual. Nunca assinou garantias. Não nos trouxe um ritual, nem mapas, nem profecias. Somos nós que escrevemos no rodapé, e damos-lhe a nossa voz, num livro sem fim e sem fé. Não quero respostas. Quero perguntas que sobrevivam às respostas. Porque um dia o Sol também se apagará. Mas, por um instante impossível, o universo abriu os olhos e viu-se através de nós.