O Universo Nunca Escreveu o Manual
Passei metade da vida
à procura de um padrão,
como se, em cada medida,
o caos pedisse perdão.
Dei nomes a cada estrela,
medi o céu sem parar,
mas nunca houve capela
que ensinasse a respirar.
Talvez o engano
não tenha sido cair.
Talvez fosse o plano
de um chão p'ra sempre existir.
O universo nunca escreveu o manual.
Nunca jurou um final feliz.
Nunca deixou nenhum sinal
de que o bem do mal é juiz.
Fomos nós
que fitámos com desatino,
tanto tempo, a sós,
até lhe chamarmos destino.
Construí futuros
como quem escreve código,
fingindo-os bem seguros
de um destino caótico.
Todo o plano preciso
morreu antes de nascer.
Mas cada improviso
me fez florescer.
Hoje vejo a caminhada:
nenhum mapa é bastante.
É a estrada
que constrói o viajante.
A bússola aponta Norte.
O coração, à deriva.
Não sei quem decide a sorte.
Só sei que escolho a vida.
O universo nunca escreveu o manual.
Nunca assinou garantias.
Não nos trouxe um ritual,
nem mapas, nem profecias.
Somos nós
que escrevemos no rodapé,
e damos-lhe a nossa voz,
num livro sem fim e sem fé.
Talvez Deus exista, distante,
talvez o vazio nos consome.
Talvez o infinito, gigante,
nem saiba o nosso nome.
Mas, por alguns segundos,
átomos que nasceram
no peito de estrelas defuntas,
aprenderam
a fazer perguntas.
E isso...
talvez chegue.
O universo nunca escreveu o manual.
Nunca assinou garantias.
Não nos trouxe um ritual,
nem mapas, nem profecias.
Somos nós
que escrevemos no rodapé,
e damos-lhe a nossa voz,
num livro sem fim e sem fé.
Não quero respostas.
Quero perguntas
que sobrevivam às respostas.
Porque um dia
o Sol também se apagará.
Mas, por um instante impossível,
o universo
abriu os olhos
e viu-se
através de nós.