O Último Comboio (Para Lado Algum)

Alexandre Reis
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Na plataforma fria, eu fiquei a ver o teu casaco a fugir sem dizer A mala no chão, a mão no corrimão e o teu adeus preso na estação O relógio caiu dentro do meu peito e a noite ficou sem qualquer direito Eu vi o teu nome no vidro embaciado e o mundo andar, mas de lado E eu disse fica tu disseste vai Mas o que se parte não volta atrás O apito ao longe fez-me tremer E eu já sabia o que ia acontecer O último comboio leva-me de ti O último comboio não volta aqui O último comboio para lado algum E eu vou sem rumo e tu vais sem um O último comboio leva o meu chão O último comboio dá-me o fim na mão O último comboio para lado algum E no escuro ainda ouço o que devia ser nenhum No banco gasto, deixei metade de mim um bilhete amarrotado, um cheiro a jasmim Tu foste embora com a luz da primeira hora e eu fiquei com a chuva a cair lá fora O revisor passou, nem me quis olhar eu mal respirava para não chorar Tinha nas mãos o frio da tua verdade e nos olhos, só saudade E eu disse volta tu disseste não Ficou na boca essa estação O ferro rangeu como um coração E eu fiquei preso na mesma direção O último comboio leva-me de ti O último comboio não volta aqui O último comboio para lado algum E eu vou sem rumo e tu vais sem um O último comboio leva o meu chão O último comboio dá-me o fim na mão O último comboio para lado algum Mas o escuro guarda o que já devia ser nenhum Se eu saltar, já não te alcanço Se eu ficar, também não me canso De esperar por um sinal num vidro baço, num cais final E há uma dor que sabe o caminho Vai sempre sentada mesmo no meu ninho O último comboio leva-me de ti O último comboio não volta aqui O último comboio para lado algum E eu vou sem rumo e tu vais sem um O último comboio leva o meu chão O último comboio dá-me o fim na mão O último comboio para lado algum Fico com o nome que devia ser nenhum