O Último Comboio (Para Lado Algum)
Na plataforma fria, eu fiquei a ver
o teu casaco a fugir sem dizer
A mala no chão, a mão no corrimão
e o teu adeus preso na estação
O relógio caiu dentro do meu peito
e a noite ficou sem qualquer direito
Eu vi o teu nome no vidro embaciado
e o mundo andar, mas de lado
E eu disse fica
tu disseste vai
Mas o que se parte
não volta atrás
O apito ao longe
fez-me tremer
E eu já sabia
o que ia acontecer
O último comboio
leva-me de ti
O último comboio
não volta aqui
O último comboio
para lado algum
E eu vou sem rumo
e tu vais sem um
O último comboio
leva o meu chão
O último comboio
dá-me o fim na mão
O último comboio
para lado algum
E no escuro ainda ouço
o que devia ser nenhum
No banco gasto, deixei metade de mim
um bilhete amarrotado, um cheiro a jasmim
Tu foste embora com a luz da primeira hora
e eu fiquei com a chuva a cair lá fora
O revisor passou, nem me quis olhar
eu mal respirava para não chorar
Tinha nas mãos o frio da tua verdade
e nos olhos, só saudade
E eu disse volta
tu disseste não
Ficou na boca
essa estação
O ferro rangeu
como um coração
E eu fiquei preso
na mesma direção
O último comboio
leva-me de ti
O último comboio
não volta aqui
O último comboio
para lado algum
E eu vou sem rumo
e tu vais sem um
O último comboio
leva o meu chão
O último comboio
dá-me o fim na mão
O último comboio
para lado algum
Mas o escuro guarda
o que já devia ser nenhum
Se eu saltar, já não te alcanço
Se eu ficar, também não me canso
De esperar por um sinal
num vidro baço, num cais final
E há uma dor
que sabe o caminho
Vai sempre sentada
mesmo no meu ninho
O último comboio
leva-me de ti
O último comboio
não volta aqui
O último comboio
para lado algum
E eu vou sem rumo
e tu vais sem um
O último comboio
leva o meu chão
O último comboio
dá-me o fim na mão
O último comboio
para lado algum
Fico com o nome
que devia ser nenhum