Morfina de Três Em Três
Tinhas riso a iluminar
sem pedir pra se impor
bastava só respirar
e a sala tinha esse calor
A palavra no lugar
quando o medo ia surgir
a tua mão sempre a chegar
antes de eu até pedir
A palavra certa em falta
chegava antes de eu chamar
a mão no escuro, pronta
como quem sabe ficar
A morfina era o momento
de três em três horas e meia
o relógio perdia o tempo
e a vida perdeu a veia
A angústia era dela
a minha era amor sem saída
outro nome para um peito
que não sabe salvar a vida
Quando a dor nos veio chamar
o relógio partiu em três
eu fiquei a funcionar
sem saber bem quem me vês
Morfina de três em três
o minuto virou mar
eu deixei de ver os meses
e passei só a aguentar
Quando o fim veio sentar-se
eu pedi no meu trabalho
três meses de ausência
e o mundo ficou a talho
A morfina era o momento
de três em três horas e meia
o relógio perdia o tempo
e a vida perdeu a veia
A angústia era dela
a minha era amor sem saída
outro nome para um peito
que não sabe salvar a vida
Tu sofrias sem te exibir
com educação e cor
a dor vinha te partir
e tu seguravas o amor
Ela sofria sem queixar-se
como visita bem recebida
com educação na dor
sem lhe entregar a mesa de ida
A tua risada abria manhãs
a frase trocada virava sinal
punha a mão antes de eu pedir
a mão
e tudo em volta perdia o banal
A morfina era o momento
de três em três horas e meia
o relógio perdia o tempo
e a vida perdeu a veia
A angústia era dela
a minha era amor sem saída
outro nome para um peito
que não sabe salvar a vida
A tua risada abria manhãs
e eu ficava a ver cair
cada coisa que parecia firme
até já nem sei fingir
Se a dor me chamou de perto
tu chamaste-me a ficar
e no meio deste aperto
só te soube amar
A morfina era o momento
de três em três horas e meia
o relógio perdia o tempo
e a vida perdeu a veia
A angústia era dela
a minha era amor sem saída
outro nome para um peito
que não sabe salvar a vida
A morfina era o momento
de três em três horas e meia
e eu guardei no silêncio
a tua luz na veia