O Último Imperfeito
O futuro é brilhante,
Tudo limpo, tudo em paz,
O algoritmo elegante,
Sabe tudo o que faz.
Ninguém chora um instante,
A máquina cura a dor,
O conforto é constante,
Sem trabalho ou suor.
A IA pensa por ti,
Eu já nem sei o que vi,
Se o erro já não responde,
Diz-me a mente para onde?
Que futuro tão perfeito,
onde a falha foi banida.
O humano foi desfeito
que insónia é esta vida.
Temos tudo sem querer,
vivemos nada sem sentir.
Nem sabemos já morrer
quanto mais partir.
O robô faz o jantar,
O carro anda sozinho,
Toda a gente a festejar,
Ninguém falha o caminho.
Não há trânsito no bar,
Nem rádio no mau canal,
Até a luz do luar,
Tem controlo digital.
Já nem pensas por ti,
Eu já nem sei o que vi,
Se o erro já não responde,
Leva-se a mente para onde?
Que futuro tão perfeito,
onde a falha foi banida.
O último imperfeito
foi o último com vida.
Fomos os criadores.
Tornámo-nos criação.
Que belos produtores
da nossa extinção.
Se a máquina tudo assume,
Deixem-me queimar no lume,
O orgulho de ter falhado,
Neste mundo programado.
O futuro chegou,
É lindo e banal,
O humano parou,
Ficou digital.
Que futuro tão perfeito,
onde a falha foi banida.
O último imperfeito
foi o último com vida.
Fomos os criadores.
Tornámo-nos criação.
Que belos produtores
da nossa extinção.
Que futuro tão perfeito,
onde a falha foi banida.
O humano foi desfeito
que magnífica saída.
Temos tudo sem querer,
vivemos nada sem sentir.
Parabéns. Isto é viver
agora sim posso partir.
Que futuro tão perfeito,
onde a dúvida foi banida.
Prometeu foi desfeito
a chama, substituída.
Não nos roubaram o fogo
nós demos, de bom grado.
E esquecemos depressa logo
que o fogo nos tinha criado.
Somos tudo o que queríamos.
Que futuro tão perfeito,
com ele, o que éramos
Do caos que foi desfeito
Extinguimo-nos com cuidado.
Com eficiência. Com razão.
Que espécie. Que legado.
Que bela extinção.
Que futuro tão perfeito,
deus também foi atualizado.
O erro foi desfeito
e o humano, cancelado.
Não morreu. Foi optimizado.
Não sofreu. Foi processado.
Que avanço. Que civilizado.
Que vazio programado.
Que futuro tão perfeito,
somos peça de exposição.
O humano foi desfeito
em código e instrução.
Com descrição e QR code,
funcionamos sem sentir.
A perfeição que ninguém pode
é a arte de não viver.