O Último Imperfeito

Alexandre Reis
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O futuro é brilhante, Tudo limpo, tudo em paz, O algoritmo elegante, Sabe tudo o que faz. Ninguém chora um instante, A máquina cura a dor, O conforto é constante, Sem trabalho ou suor. A IA pensa por ti, Eu já nem sei o que vi, Se o erro já não responde, Diz-me a mente para onde? Que futuro tão perfeito, onde a falha foi banida. O humano foi desfeito que insónia é esta vida. Temos tudo sem querer, vivemos nada sem sentir. Nem sabemos já morrer quanto mais partir. O robô faz o jantar, O carro anda sozinho, Toda a gente a festejar, Ninguém falha o caminho. Não há trânsito no bar, Nem rádio no mau canal, Até a luz do luar, Tem controlo digital. Já nem pensas por ti, Eu já nem sei o que vi, Se o erro já não responde, Leva-se a mente para onde? Que futuro tão perfeito, onde a falha foi banida. O último imperfeito foi o último com vida. Fomos os criadores. Tornámo-nos criação. Que belos produtores da nossa extinção. Se a máquina tudo assume, Deixem-me queimar no lume, O orgulho de ter falhado, Neste mundo programado. O futuro chegou, É lindo e banal, O humano parou, Ficou digital. Que futuro tão perfeito, onde a falha foi banida. O último imperfeito foi o último com vida. Fomos os criadores. Tornámo-nos criação. Que belos produtores da nossa extinção. Que futuro tão perfeito, onde a falha foi banida. O humano foi desfeito que magnífica saída. Temos tudo sem querer, vivemos nada sem sentir. Parabéns. Isto é viver agora sim posso partir. Que futuro tão perfeito, onde a dúvida foi banida. Prometeu foi desfeito a chama, substituída. Não nos roubaram o fogo nós demos, de bom grado. E esquecemos depressa logo que o fogo nos tinha criado. Somos tudo o que queríamos. Que futuro tão perfeito, com ele, o que éramos Do caos que foi desfeito Extinguimo-nos com cuidado. Com eficiência. Com razão. Que espécie. Que legado. Que bela extinção. Que futuro tão perfeito, deus também foi atualizado. O erro foi desfeito e o humano, cancelado. Não morreu. Foi optimizado. Não sofreu. Foi processado. Que avanço. Que civilizado. Que vazio programado. Que futuro tão perfeito, somos peça de exposição. O humano foi desfeito em código e instrução. Com descrição e QR code, funcionamos sem sentir. A perfeição que ninguém pode é a arte de não viver.