O Eu Que Nunca Ofereço
Começou como jogo inocente,
um perfil aqui, uma conta além.
Construímos o eu diferente
para cada plataforma que nos contém.
No trabalho sou formal e certeiro.
No Instagram sou brilhante sem custo.
Em casa sou apenas só o primeiro,
o único que ninguém acha justo.
Cada login é uma pele nova.
Cada plataforma pede a sua função.
Identidade que já não se comprova
comprova-se performance. Não a razão.
De manhã somos o perfil certo.
À noite somos eco do deserto.
Ao apagar o ecrã — meme secreto.
Ou alguém que já não é completo.
Quem sou quando desapareço
de toda a rede, de repente?
Talvez o eu que nunca ofereço:
o único que não é urgente.
Troquei defeitos por filtros.
Ganhei aplausos sem voz.
Quanto melhor ficou a imagem,
mais difícil ficou a voz.
O algoritmo aprendeu os gostos.
Mostrou o que queríamos ver.
Fomos pagando esses impostos
sem saber perdemos a crer.
Há uma versão que foi primeira
antes dos filtros, antes do papel.
Existias de outra qualquer maneira.
Sem seguidor. Sem carrossel...
De manhã visto um nome.
À noite dispo-o também.
Há quem conheça os dados.
Ninguém me conhece bem.
Quem sou quando desapareço
de toda a rede, de repente?
Talvez o eu que nunca ofereço:
o único que não é urgente.
Quem era antes de desaparecer
dentro de todos estes papéis?
Talvez o eu que havia de nascer
antes desses primeiros fiéis.
A autenticidade não tem algoritmo.
Não tem likes. Não tem maravilhas.
É o eu que existe no mínimo,
antes do login. Depois da vigília.
Somos arquivos em aberto.
Somos versões por actualizar.
Tantos eus para impressionar,
e tão poucos para poder abraçar...
Escolhemos identidades
como filtros. Ajustamos o tom.
Perdemos pelo caminho os registos,
de quem éramos antes da narrativa.
Quem sou quando desapareço
de toda a rede, de repente?
Talvez o eu que nunca ofereço:
o único que não é urgente.
Somos utilizadores de nós.
Gerimos versões, escolhemos o ser.
O eu que sobrou ficou sem voz,
esse nunca soube aparecer.
Se um dia fechar a conta
que nunca chegou a abrir...
talvez encontre finalmente
quem ficou por seguir.