O Eu Que Nunca Ofereço

Alexandre Reis
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Começou como jogo inocente, um perfil aqui, uma conta além. Construímos o eu diferente para cada plataforma que nos contém. No trabalho sou formal e certeiro. No Instagram sou brilhante sem custo. Em casa sou apenas só o primeiro, o único que ninguém acha justo. Cada login é uma pele nova. Cada plataforma pede a sua função. Identidade que já não se comprova comprova-se performance. Não a razão. De manhã somos o perfil certo. À noite somos eco do deserto. Ao apagar o ecrã — meme secreto. Ou alguém que já não é completo. Quem sou quando desapareço de toda a rede, de repente? Talvez o eu que nunca ofereço: o único que não é urgente. Troquei defeitos por filtros. Ganhei aplausos sem voz. Quanto melhor ficou a imagem, mais difícil ficou a voz. O algoritmo aprendeu os gostos. Mostrou o que queríamos ver. Fomos pagando esses impostos sem saber perdemos a crer. Há uma versão que foi primeira antes dos filtros, antes do papel. Existias de outra qualquer maneira. Sem seguidor. Sem carrossel... De manhã visto um nome. À noite dispo-o também. Há quem conheça os dados. Ninguém me conhece bem. Quem sou quando desapareço de toda a rede, de repente? Talvez o eu que nunca ofereço: o único que não é urgente. Quem era antes de desaparecer dentro de todos estes papéis? Talvez o eu que havia de nascer antes desses primeiros fiéis. A autenticidade não tem algoritmo. Não tem likes. Não tem maravilhas. É o eu que existe no mínimo, antes do login. Depois da vigília. Somos arquivos em aberto. Somos versões por actualizar. Tantos eus para impressionar, e tão poucos para poder abraçar... Escolhemos identidades como filtros. Ajustamos o tom. Perdemos pelo caminho os registos, de quem éramos antes da narrativa. Quem sou quando desapareço de toda a rede, de repente? Talvez o eu que nunca ofereço: o único que não é urgente. Somos utilizadores de nós. Gerimos versões, escolhemos o ser. O eu que sobrou ficou sem voz, esse nunca soube aparecer. Se um dia fechar a conta que nunca chegou a abrir... talvez encontre finalmente quem ficou por seguir.