Prisão Consensual
Chamaram-lhe proteção,
vestiram medo de confiança.
Enquanto fechavam a prisão,
vendiam-nos a esperança.
O código esconde o que o cofre retém,
Cifram-me a alma com muito desvelo.
O lobo vigia a ovelha também,
Vende a lã que retirou do pelo.
Aceito contrato sem ler o papel,
A firewall é forte para o comerciante.
Engulo o veneno que sabe a mel,
Que deixa despido pobre cliente.
Dizem que a rede é o meu salvador,
Mas o sistema só serve o senhor.
Protege o lucro de quem for doutor,
Vende o rebanho ao grande comprador.
Quanto mais dizem "és livre",
mais estreito fica o caminho.
Quem desenhou o teu destino
nunca o caminhou sozinho.
Nunca me apontaram nenhuma arma,
nem nunca ouvi qualquer ameaça.
Só me ensinaram, entre palmas,
a vender toda a minha alma.
Protegem os cofres, os servidores,
protegem as marcas, o capital.
Mas deixam nus os consumidores
neste mercado digital.
Bloqueiam as fraudes que atacam empresas,
A falsa promessa de privacidade
Deixa a nossa carteira nas mesas,
Sendo o disfarce de uma autoridade.
Nunca me apontaram nenhuma arma,
nem nunca ouvi qualquer ameaça.
Só me ensinaram, entre palmas,
a vender toda a minha graça.
Protegem os cofres, os servidores,
protegem as marcas, o capital.
Mas deixam nus os consumidores
neste mercado global.
Cada hesitação fica logo gravada,
O escudo que brilha no écran digital
Mostra a rotina que foi arquivada,
Apenas servindo o comercial.
Se a segurança protege a sentença,
O vidro é fumado, o jogo fechado.
Quem nos defende da sua presença?
Quem protege quem é observado?
Há muralhas contra ladrões,
há senhas, chaves e blindagem.
Mas deixam abertas as razões
que nos compram cada viagem.
Nunca me apontaram nenhuma arma,
Compramos tempo, vendemos vida,
Só me ensinaram, entre almas,
Que a liberdade foi vendida
Dizem que é para me guardar,
mas contam tudo o que eu sou.
Quanto mais me querem salvar,
menos sei para onde eu vou.
Se sabem tudo o que desejo
antes de o meu peito falar,
será vontade o que eu vejo...
ou alguém a sonhar?
A montra chama pelo nome,
o algoritmo faz-se amigo.
No fim descobre-se quem come...
e quem serviu de trigo.
Se me conheces tão bem assim,
diz-me onde acaba o meu querer.
Quando decides tudo por mim,
quem é que ficou por viver?
Nunca me apontaram nenhuma arma,
Compramos tempo, vendemos vida,
Só me ensinaram, entre almas,
Que a liberdade foi vendida
Dizem que é para me guardar,
mas contam tudo o que eu sou.
Quanto mais me querem salvar,
menos sei para onde eu vou.