Prisão Consensual

Alexandre Reis
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Chamaram-lhe proteção, vestiram medo de confiança. Enquanto fechavam a prisão, vendiam-nos a esperança. O código esconde o que o cofre retém, Cifram-me a alma com muito desvelo. O lobo vigia a ovelha também, Vende a lã que retirou do pelo. Aceito contrato sem ler o papel, A firewall é forte para o comerciante. Engulo o veneno que sabe a mel, Que deixa despido pobre cliente. Dizem que a rede é o meu salvador, Mas o sistema só serve o senhor. Protege o lucro de quem for doutor, Vende o rebanho ao grande comprador. Quanto mais dizem "és livre", mais estreito fica o caminho. Quem desenhou o teu destino nunca o caminhou sozinho. Nunca me apontaram nenhuma arma, nem nunca ouvi qualquer ameaça. Só me ensinaram, entre palmas, a vender toda a minha alma. Protegem os cofres, os servidores, protegem as marcas, o capital. Mas deixam nus os consumidores neste mercado digital. Bloqueiam as fraudes que atacam empresas, A falsa promessa de privacidade Deixa a nossa carteira nas mesas, Sendo o disfarce de uma autoridade. Nunca me apontaram nenhuma arma, nem nunca ouvi qualquer ameaça. Só me ensinaram, entre palmas, a vender toda a minha graça. Protegem os cofres, os servidores, protegem as marcas, o capital. Mas deixam nus os consumidores neste mercado global. Cada hesitação fica logo gravada, O escudo que brilha no écran digital Mostra a rotina que foi arquivada, Apenas servindo o comercial. Se a segurança protege a sentença, O vidro é fumado, o jogo fechado. Quem nos defende da sua presença? Quem protege quem é observado? Há muralhas contra ladrões, há senhas, chaves e blindagem. Mas deixam abertas as razões que nos compram cada viagem. Nunca me apontaram nenhuma arma, Compramos tempo, vendemos vida, Só me ensinaram, entre almas, Que a liberdade foi vendida Dizem que é para me guardar, mas contam tudo o que eu sou. Quanto mais me querem salvar, menos sei para onde eu vou. Se sabem tudo o que desejo antes de o meu peito falar, será vontade o que eu vejo... ou alguém a sonhar? A montra chama pelo nome, o algoritmo faz-se amigo. No fim descobre-se quem come... e quem serviu de trigo. Se me conheces tão bem assim, diz-me onde acaba o meu querer. Quando decides tudo por mim, quem é que ficou por viver? Nunca me apontaram nenhuma arma, Compramos tempo, vendemos vida, Só me ensinaram, entre almas, Que a liberdade foi vendida Dizem que é para me guardar, mas contam tudo o que eu sou. Quanto mais me querem salvar, menos sei para onde eu vou.