Dois Rinocerontes a Respirar, Dois a Ficar

Alexandre Reis
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A máquina vê antes do olhar, o bicho ferido antes de cair, e nós, tão prontos a admirar, o que não soubemos impedir. Drones no capim a rondar, sensores a ouvir a floresta, e a mão que devia amparar vai sempre chegando tarde à festa. Há um brilho frio no ecrã, uma lucidez sem oração, mas quem lê o mapa de amanhã vende-o logo em segunda mão. Dois rinocerontes a respirar (Dois rinocerontes) dois no planeta a ficar (Dois rinocerontes) Não é ciência a falhar, é a espécie a adiar o que já sabe salvar o que já sabe matar Rastreia-se o marfim ao calor, a rota, o cais, o destino, e o mesmo saber com vigor serve o caçador e o assassino. Satélites sobre a baleia, gps na sombra da mata, e a rede que guarda a maré também mede a costa que trata. A ferramenta é só reflexo, não tem remorso nem perdão, e o espelho, sem ter complexo, mostra a nossa própria eleição. Dois rinocerontes a respirar (Dois rinocerontes) dois no planeta a ficar (Dois rinocerontes) Não é ciência a falhar, é a espécie a adiar o que já sabe salvar o que já sabe matar Se a história não se repete, então por que a deixamos igual? Temos futuro no caderno, e escolhemos o marginal. Temos dados, temos visão, temos cálculo e precisão, mas a vontade, essa irmã, fica presa à reunião. Dois rinocerontes a respirar (Dois rinocerontes) dois no planeta a ficar (Dois rinocerontes) Não é ciência a falhar, é a espécie a adiar o que já sabe salvar o que já sabe matar A tecnologia chegou, isso nunca esteve em dúvida. O problema foi sempre outro: a alma a fingir-se absoluta. -- Sobre este post: https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:7477793894714306560/ A Tecnologia Que Poderia Salvar o Planeta Já Existe: Falta Outra Coisa. Há uma conversa que a humanidade continua a adiar. Não é sobre o que a tecnologia consegue fazer pelos animais. Essa parte já sabemos. Sabemos que algoritmos de inteligência artificial identificam espécies em risco antes de qualquer biólogo no terreno. Que drones patrulham florestas tropicais com uma eficácia que nenhum ranger humano consegue igualar. Que sensores acústicos detetam motosserras ilegais em tempo real, a quilómetros de distância. Que bases de dados genéticas conseguem rastrear o tráfico de marfim de volta ao elefante específico que foi abatido. A tecnologia já chegou. O problema é que chegou ao serviço de quem a paga. A Ferramenta Não Tem Consciência A mesma rede de satélites que permite monitorizar movimentos de baleias no oceano permite também calcular as rotas mais eficientes para as frotas que as caçam. O mesmo GPS que protege elefantes pode ser explorado por caçadores furtivos que sabem ler os mesmos dados. A mesma inteligência artificial que prevê extinções é usada por empresas de extração para encontrar reservas minerais sob habitats protegidos. A tecnologia não tem moral. Nunca teve. É sempre um espelho do que decidimos ser. E o que decidimos ser está inscrito em cada escolha que fazemos como civilização. O Ponto Crítico Estamos a viver um momento que a história não vai repetir. Temos pela primeira vez ferramentas com capacidade real para inverter décadas de destruição em ecossistemas inteiros. Temos dados suficientes para tomar decisões informadas. Temos poder computacional para modelar o futuro do planeta com uma precisão que gerações anteriores nem conseguiriam imaginar. E continuamos a ter reuniões a capitalizar o problema. Há algo profundamente perturbador em saber que a espécie que criou a inteligência artificial ainda não foi capaz de criar vontade política suficiente para proteger o rinoceronte-branco do norte, do qual restam dois indivíduos no planeta. Dois… Não é um dado científico. Isto é uma sentença. Restam apenas dois indivíduos vivos no mundo. O último macho, Sudan, morreu em 2018. Desde então, a subespécie deixou de conseguir reproduzir-se naturalmente. O Que Falta A questão nunca foi tecnológica. Foi sempre sobre o que valorizamos o suficiente para proteger. Durante séculos, a destruição da natureza foi invisível porque estava longe dos centros de decisão. A tecnologia eliminou essa desculpa. Hoje vemos tudo, em tempo real, com resolução suficiente para reconhecer o rosto de um animal que já não existe. E continuamos a ver. Talvez o problema mais profundo da nossa era digital não seja a desinformação, nem a privacidade, nem sequer a IA. Seja a anestesia moral que nos permite observar a extinção em alta definição e continuar a deslizar para o próximo vídeo. Porque uma civilização que tem as ferramentas para salvar o planeta e decide não as usar não está perante um problema tecnológico. Está perante um problema de carácter.