Guardam Séculos Em Bytes
Houve um tempo em que um abraço
não cabia num lugar.
Hoje cabe num ficheiro...
mas esqueceu como apertar.
Guardaram todos os livros,
com medo de os perder.
Esqueceram que uma história...
também precisa viver.
Digitalizaram quadros,
para o tempo conservar.
Mas nenhuma tela aprende...
o cheiro do velho lar.
Copiámos cada página,
cada nota, cada olhar.
Quem faz cópia de um silêncio...
antes dele se calar?
Salvámos todas as obras.
Salvámos cada lugar.
Mas quem faz backup da alma...
quando ela se apagar?
Guardámos tudo em ficheiros,
com medo de o perder.
Mas há memórias que só vivem...
quando alguém as volta a viver.
Há violinos sem madeira.
Há retratos sem calor.
Há fotografias perfeitas...
que nunca conheceram amor.
Um servidor guarda histórias,
sem nunca as abraçar.
Uma avó guarda uma infância...
sem precisar recordar.
Há memórias sem arquivo.
Há verdades sem provar.
Porque aquilo que nos muda...
ninguém consegue guardar.
Salvámos todas as obras.
Salvámos cada lugar.
Mas quem faz backup da alma...
quando ela se apagar?
Copiámos todas as coisas,
que o tempo quis levar.
Mas ninguém fez uma cópia...
de quem sabia contar.
Podem copiar um quadro.
Podem copiar o mar.
Ainda ninguém descobriu...
como copiar um lar.
Guardam séculos em bytes.
Sem um único respirar.
Porque o peso de um abraço...
não se deixa digitalizar.
Porque, cultura não é memória...
é alguém a transmitir.
Espero, que nunca descubram
como nos substituir.
Guardámos toda a História,
com medo de a perder.
Esquecemos que a História...
precisa de acontecer.
Guardámos toda a História.
Sem a saber escutar.
Porque memória não é ficheiro...
é alguém a recordar.
Recordar...
não guardar…
Viver...
para contar...
Os discos guardam memórias,
sem nunca as compreender.
Só um coração descobre...
o que vale a pena esquecer.
Um servidor guarda histórias,
sem nunca as abraçar.
Uma avó guarda uma infância...
sem precisar recordar.
Guardámos tudo em ficheiros,
com medo de o perder.
Mas há memórias que só vivem...
quando alguém as volta a viver.