Quem Vai Herdar Os Dados

Alexandre Reis
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A era digital guardou a mente, Cada segundo a vida vai filmar, Se antes o tempo apagava o presente, Hoje a memória não sabe parar. Fotos e dados na rede perdidos, Ficam guardados na nuvem a sós, Fazem de nós meros ficheiros servidos, Sem dar um ponto final à nossa voz. O tempo não apaga este registo, Nem deixa a dor finalmente morrer, Um erro antigo fica nisto, E o algoritmo recusa-se a esquecer. Quem vai herdar os dados do passado E decidir o que se vai fechar? O nosso nome vive aprisionado, Num código que não quer apagar. A nossa vida virou um recurso, Que o mundo explora sem pedir sinal, Perdeu-se a trégua e perdeu-se o curso, Na imortalidade do sinal. Rastos de buscas e frases sem filtro, Ganhamos redes mas perdeu-se o chão, O que era íntimo virou um árbitro, Que nos condena sem dar absolvição. O direito ao esquecimento já era, A máquina aprende sem ter um fim, E na frieza desta nova era, Guarda o passado de ti e de mim. A privacidade ficou esquecida, Nenhum sistema nos vai devolver, A imortalidade da nossa vida É uma prisão que continua a crescer. Quem vai herdar os dados do passado E decidir o que se vai fechar? O nosso nome vive aprisionado, Num código que não quer apagar. A nossa vida virou um recurso, Que o mundo explora sem pedir sinal, Perdeu-se a trégua e perdeu-se o curso, Na imortalidade do sinal. Talvez um dia este imenso arquivo Possa servir para nos inspirar, Se for um livro da mente humano e vivo, Que sirva as bases para a história contar. Se for o legado de quem já partiu, Em vez de um fardo para nos julgar, Ver a verdade que o tempo sentiu, Sem que o futuro nos venha cobrar. Governos e marcas disputam o bem, Querem a posse da nossa memória, Se o dono da alma já não tem ninguém, Quem tem o direito de gerir a história? Guardar o passado não deve ser pena, E o ser humano tem que decidir, Quem limpa o palco e fecha a cena, Quando chegarmos à hora de partir. O desafio do tempo que vem, É dar à memória a sua razão, Para que os dados não fiquem de alguém, Que faça do homem uma coleção. Quem vai herdar os dados do passado E decidir o que se vai fechar? O nosso nome vive aprisionado, Num código que não quer apagar. A nossa vida virou um recurso, Que o mundo explora sem pedir sinal, Perdeu-se a trégua e perdeu-se o curso, Na imortalidade do sinal. Deixa a memória... partir... Deixa a máquina... calar... Deixa a vida... fluir... Para o silêncio... voltar... O servidor não devia guardar, O que a vida precisava de esquecer, Se a nossa história não pode acabar, Nenhum de nós vai conseguir nascer. Quem herda o código não sabe do amor, Nem do direito de recomeçar, Se a máquina lembra de toda a dor, O ser humano não pode voltar.