Quem Vai Herdar Os Dados
A era digital guardou a mente,
Cada segundo a vida vai filmar,
Se antes o tempo apagava o presente,
Hoje a memória não sabe parar.
Fotos e dados na rede perdidos,
Ficam guardados na nuvem a sós,
Fazem de nós meros ficheiros servidos,
Sem dar um ponto final à nossa voz.
O tempo não apaga este registo,
Nem deixa a dor finalmente morrer,
Um erro antigo fica nisto,
E o algoritmo recusa-se a esquecer.
Quem vai herdar os dados do passado
E decidir o que se vai fechar?
O nosso nome vive aprisionado,
Num código que não quer apagar.
A nossa vida virou um recurso,
Que o mundo explora sem pedir sinal,
Perdeu-se a trégua e perdeu-se o curso,
Na imortalidade do sinal.
Rastos de buscas e frases sem filtro,
Ganhamos redes mas perdeu-se o chão,
O que era íntimo virou um árbitro,
Que nos condena sem dar absolvição.
O direito ao esquecimento já era,
A máquina aprende sem ter um fim,
E na frieza desta nova era,
Guarda o passado de ti e de mim.
A privacidade ficou esquecida,
Nenhum sistema nos vai devolver,
A imortalidade da nossa vida
É uma prisão que continua a crescer.
Quem vai herdar os dados do passado
E decidir o que se vai fechar?
O nosso nome vive aprisionado,
Num código que não quer apagar.
A nossa vida virou um recurso,
Que o mundo explora sem pedir sinal,
Perdeu-se a trégua e perdeu-se o curso,
Na imortalidade do sinal.
Talvez um dia este imenso arquivo
Possa servir para nos inspirar,
Se for um livro da mente humano e vivo,
Que sirva as bases para a história contar.
Se for o legado de quem já partiu,
Em vez de um fardo para nos julgar,
Ver a verdade que o tempo sentiu,
Sem que o futuro nos venha cobrar.
Governos e marcas disputam o bem,
Querem a posse da nossa memória,
Se o dono da alma já não tem ninguém,
Quem tem o direito de gerir a história?
Guardar o passado não deve ser pena,
E o ser humano tem que decidir,
Quem limpa o palco e fecha a cena,
Quando chegarmos à hora de partir.
O desafio do tempo que vem,
É dar à memória a sua razão,
Para que os dados não fiquem de alguém,
Que faça do homem uma coleção.
Quem vai herdar os dados do passado
E decidir o que se vai fechar?
O nosso nome vive aprisionado,
Num código que não quer apagar.
A nossa vida virou um recurso,
Que o mundo explora sem pedir sinal,
Perdeu-se a trégua e perdeu-se o curso,
Na imortalidade do sinal.
Deixa a memória... partir...
Deixa a máquina... calar...
Deixa a vida... fluir...
Para o silêncio... voltar...
O servidor não devia guardar,
O que a vida precisava de esquecer,
Se a nossa história não pode acabar,
Nenhum de nós vai conseguir nascer.
Quem herda o código não sabe do amor,
Nem do direito de recomeçar,
Se a máquina lembra de toda a dor,
O ser humano não pode voltar.