A Minha Conta Está Feita
Perdi o comboio da hora,
Na estação da minha vida,
O tempo que vai embora,
Já não promete saída.
Guardei o peito fechado,
Numa gaveta sem luz,
Perdi o meu próprio lado,
Na dor que o tempo traduz.
Fiquei amigo do vento,
Abracei o ar vazio,
No meio deste lamento,
Ganhei a marca do frio.
Escrevi a regra perfeita,
Mas não vivi o meu dia,
A minha conta está feita,
Perdi toda a magia.
Tracei a teoria inteira,
Esqueci de viver o dia,
Perdi a vida na esteira,
Ganhei juízo e mania.
Pus dois pratos sobre a mesa,
E vi o tempo a jantar,
Fiquei com a triste certeza,
Que ninguém vai entrar.
O destino sabe a porta,
Mas a casa está vazia,
A paciência está morta,
Na curva desta ironia.
Treinei o abraço no ar,
Sem saber o que dizer,
Aprender a esperar,
É uma forma de morrer.
Escrevi a regra perfeita,
Mas não vivi o meu dia,
A minha conta está feita,
Perdi toda a magia.
Chega a promessa no fim,
Com a pressa de compensar,
Mas se o tempo acaba em mim,
Até a ironia vai cansar.
Guardei a alma sem marca,
Na prateleira do fim,
A vida fecha a sua arca,
E nada sobra de mim.
Chegas no fim do jantar,
Com a promessa na mão,
Já não há nada a dar,
Neste resto de chão.
O relógio bate a hora,
Neste filme sem sentido,
A luz do dia vai embora,
Neste tempo já perdido.
Escrevi a regra perfeita,
Mas não vivi o meu dia,
A minha conta está feita,
Perdi toda a magia.
A alma sem uma racha,
Guardada na prateleira,
Quem procura nem sempre acha,
Nesta busca traiçoeira.
Chegaste tarde demais,
À festa sem luz nem dor,
Já não se fazem sinais,
Onde acabou o amor.
A conta ficou paga,
O tempo fechou a porta,
E na luz que se apaga,
Já nada mais importa.