A Minha Conta Está Feita

Alexandre Reis
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Perdi o comboio da hora, Na estação da minha vida, O tempo que vai embora, Já não promete saída. Guardei o peito fechado, Numa gaveta sem luz, Perdi o meu próprio lado, Na dor que o tempo traduz. Fiquei amigo do vento, Abracei o ar vazio, No meio deste lamento, Ganhei a marca do frio. Escrevi a regra perfeita, Mas não vivi o meu dia, A minha conta está feita, Perdi toda a magia. Tracei a teoria inteira, Esqueci de viver o dia, Perdi a vida na esteira, Ganhei juízo e mania. Pus dois pratos sobre a mesa, E vi o tempo a jantar, Fiquei com a triste certeza, Que ninguém vai entrar. O destino sabe a porta, Mas a casa está vazia, A paciência está morta, Na curva desta ironia. Treinei o abraço no ar, Sem saber o que dizer, Aprender a esperar, É uma forma de morrer. Escrevi a regra perfeita, Mas não vivi o meu dia, A minha conta está feita, Perdi toda a magia. Chega a promessa no fim, Com a pressa de compensar, Mas se o tempo acaba em mim, Até a ironia vai cansar. Guardei a alma sem marca, Na prateleira do fim, A vida fecha a sua arca, E nada sobra de mim. Chegas no fim do jantar, Com a promessa na mão, Já não há nada a dar, Neste resto de chão. O relógio bate a hora, Neste filme sem sentido, A luz do dia vai embora, Neste tempo já perdido. Escrevi a regra perfeita, Mas não vivi o meu dia, A minha conta está feita, Perdi toda a magia. A alma sem uma racha, Guardada na prateleira, Quem procura nem sempre acha, Nesta busca traiçoeira. Chegaste tarde demais, À festa sem luz nem dor, Já não se fazem sinais, Onde acabou o amor. A conta ficou paga, O tempo fechou a porta, E na luz que se apaga, Já nada mais importa.