A Pedra Sangrou O Ferro
Arrancamos ferro à rocha,
Para erguer a engrenagem,
Onde a fumo e numa tocha,
Se moldou a esta paisagem.
A pedra virou cimento,
O suor virou metal,
Neste acelerar do tempo,
Criamos o nosso próprio mal.
A bateria ritmada,
Puxa a linha de montagem,
Toda a gente alucinada,
Sem saber desta viagem.
A pedra sangrou o ferro,
A máquina engoliu o chão,
Corremos atrás do erro,
Com o motor na própria mão.
Corremos além da sombra,
Numa corrida de louco,
A velocidade assombra,
Pois a meta dura pouco.
O algoritmo comanda,
Uma corrida sem destino,
A máquina é quem manda,
No relógio do menino.
Se queres parar um segundo,
Essa engrenagem que te esmaga,
Nesta pressa perdes o mundo,
Ninguém paga o que se estraga.
O aço substitui o deus,
O circuito toma o chão,
Apagamos os céus,
Com as mãos de uma nação.
A pedra sangrou o ferro,
A máquina engoliu o chão,
Corremos atrás do erro,
Com o motor na própria mão.
A meta é a mesma parede,
A pressa não tem perdão,
O aço acalma a sede,
E o homem vira ilusão.
Mãos antigas na poeira,
Olham hoje este motor,
Uma humanidade inteira,
A servir o seu senhor.
A promessa de ir mais longe,
Era um mero alçapão,
Onde o homem já nem foge,
Preso nesta fictícia produção.
Batem tambores de guerra,
Sintetizador alto a chiar,
O que era feito de terra,
Hoje é ferro a queimar.
A pedra sangrou o ferro,
A máquina engoliu o chão,
Corremos atrás do erro,
Com o motor na própria mão.
Moldamos o ferro em deus,
Rendemos a terra ao aço,
Roubamos o fogo aos céus,
Para morrer no cansaço.
Acelera este motor,
Corta a rocha com o metal,
Já não sentimos a dor,
Nesta corrida sem final.
Bater contra a mesma parede,
É o preço de acelerar,
A terra morreu de sede,
Para o ferro poder andar.