A Pedra Sangrou O Ferro

Alexandre Reis
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Arrancamos ferro à rocha, Para erguer a engrenagem, Onde a fumo e numa tocha, Se moldou a esta paisagem. A pedra virou cimento, O suor virou metal, Neste acelerar do tempo, Criamos o nosso próprio mal. A bateria ritmada, Puxa a linha de montagem, Toda a gente alucinada, Sem saber desta viagem. A pedra sangrou o ferro, A máquina engoliu o chão, Corremos atrás do erro, Com o motor na própria mão. Corremos além da sombra, Numa corrida de louco, A velocidade assombra, Pois a meta dura pouco. O algoritmo comanda, Uma corrida sem destino, A máquina é quem manda, No relógio do menino. Se queres parar um segundo, Essa engrenagem que te esmaga, Nesta pressa perdes o mundo, Ninguém paga o que se estraga. O aço substitui o deus, O circuito toma o chão, Apagamos os céus, Com as mãos de uma nação. A pedra sangrou o ferro, A máquina engoliu o chão, Corremos atrás do erro, Com o motor na própria mão. A meta é a mesma parede, A pressa não tem perdão, O aço acalma a sede, E o homem vira ilusão. Mãos antigas na poeira, Olham hoje este motor, Uma humanidade inteira, A servir o seu senhor. A promessa de ir mais longe, Era um mero alçapão, Onde o homem já nem foge, Preso nesta fictícia produção. Batem tambores de guerra, Sintetizador alto a chiar, O que era feito de terra, Hoje é ferro a queimar. A pedra sangrou o ferro, A máquina engoliu o chão, Corremos atrás do erro, Com o motor na própria mão. Moldamos o ferro em deus, Rendemos a terra ao aço, Roubamos o fogo aos céus, Para morrer no cansaço. Acelera este motor, Corta a rocha com o metal, Já não sentimos a dor, Nesta corrida sem final. Bater contra a mesma parede, É o preço de acelerar, A terra morreu de sede, Para o ferro poder andar.