Quanto Tempo Demora O Tempo

Alexandre Reis
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Tenho uma frase guardada, Nesta mente a remoer, Uma questão encravada, Que me impede de viver. Olho a noite na janela, E a sombra do meu chão, Procurando a resposta dela, Na calada da razão. O segundo cai no ar, Sem ter pressa de partir, O silêncio a arrastar, Sem me deixar fugir. A borracha do passado, Perdeu a força de apagar, Deixando o meu lado, Para sempre a recordar. A hora avança devagar, Nesta estrada sem saber, Até quando vou carregar, O que devia morrer? Quanto tempo demora o tempo, A esquecer o que viveu? Quanto dura este lamento, Do que a vida me perdeu? Quanto tempo demora o tempo, A esquecer o que passou? Quanto dura este lamento, Daquilo que não ficou? Rabisquei a minha vida, Com a tinta da ilusão, Deixando a porta aberta, Para esta solidão. Mas o mapa do futuro, Tem a cor do meu passado, Neste caminho tão duro, Onde fico encurralado. O relógio não perdoa, A memória não se vai, A pergunta que ressoa, É a folha que não cai. Quanto tempo demora o tempo, A esquecer o que viveu? Quanto dura este lamento, Do que a vida me perdeu? Quanto tempo demora o tempo, A esquecer o que passou? Quanto dura este lamento, Daquilo que não ficou? Talvez o tempo seja cego, E não saiba o que guardar, E neste peito onde me meço, Só saiba acumular. Escrevi tudo na pedra, O tempo não veio lavar, E a ferida que se medra, Não se deixa fechar. A resposta não vem hoje, Nem virá no meu amanhã, Enquanto a vida me foge, Nesta espera que é vã. Quanto tempo demora o tempo, A esquecer o que viveu? Quanto dura este lamento, Do que a vida me perdeu? Quanto tempo demora o tempo, A esquecer o que passou? Quanto dura este lamento, Daquilo que não ficou? Deixa o relógio bater, Deixa a noite fechar, O tempo não vai esquecer, O que ensinou a guardar. Busco a trégua da borracha, Para apagar o que vivi, Mas a alma não a acha, Desde o dia em que te perdi. Se o tempo não aprende a apagar, O que a vida deixou em mim, A pergunta vai continuar, Mesmo depois do fim.