Já Não Corro Para Chegar

Alexandre Reis
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Acordo com o peso no peito, O corpo recusa-se a andar, Mas cumpro o meu velho dever, Sem tempo para me queixar. O sono já não me descansa, A mente recusa parar, Perdeu-se toda a esperança, Neste eterno caminhar. Arrasto a minha estrutura, Por esta rotina de ferro, Viver virou esta cura, Que se alimenta do erro. A perna continua o passo, Por mera e fria inércia, Carrego este grande cansaço, Sem ter qualquer urgência. O relógio não me dá trégua, A vida não tem um botão, Cada metro é uma légua, Que me atira para o chão. Já não corro para chegar, A nenhum destino traçado, Corro apenas para fechar, E não ser esmagado. O cansaço virou a herança, Que o tempo me veio deixar, Perdi a última lembrança, Do que era descansar. A rotina é uma prensa, Que aperta o meu pescoço, Nesta fadiga tão densa, Que já me quebra no osso. Continuo a marcha pesada, Porque parar é o fim, Nesta estrada queimada, Já nada sobra de mim. O dia começa de novo, Com a mesma obrigação, No meio deste povo, Sem ter absolvição. Já não corro para chegar, A nenhum destino traçado, Corro apenas para fechar, E não ser esmagado. A roda continua a girar, O corpo continua a andar, Sem tempo para parar, Sem forças para mudar. Mão pesada na parede, Sigo sem ter direção, O corpo morre de sede, Na força da produção. O silêncio do fim do dia, Não traz a paz que pedi, Perdeu-se toda a energia, Na vida que já perdi. Já não corro para chegar, A nenhum destino traçado, Corro apenas para fechar, E não ser esmagado. Amanhã é a mesma cena, O mesmo passo no chão, Cumpro a minha própria pena, Sem ter uma salvação. Se a corrida não tem meta, E o cansaço é a lei, A minha conta está certa, Na vida que não vivi.