Já Não Corro Para Chegar
Acordo com o peso no peito,
O corpo recusa-se a andar,
Mas cumpro o meu velho dever,
Sem tempo para me queixar.
O sono já não me descansa,
A mente recusa parar,
Perdeu-se toda a esperança,
Neste eterno caminhar.
Arrasto a minha estrutura,
Por esta rotina de ferro,
Viver virou esta cura,
Que se alimenta do erro.
A perna continua o passo,
Por mera e fria inércia,
Carrego este grande cansaço,
Sem ter qualquer urgência.
O relógio não me dá trégua,
A vida não tem um botão,
Cada metro é uma légua,
Que me atira para o chão.
Já não corro para chegar,
A nenhum destino traçado,
Corro apenas para fechar,
E não ser esmagado.
O cansaço virou a herança,
Que o tempo me veio deixar,
Perdi a última lembrança,
Do que era descansar.
A rotina é uma prensa,
Que aperta o meu pescoço,
Nesta fadiga tão densa,
Que já me quebra no osso.
Continuo a marcha pesada,
Porque parar é o fim,
Nesta estrada queimada,
Já nada sobra de mim.
O dia começa de novo,
Com a mesma obrigação,
No meio deste povo,
Sem ter absolvição.
Já não corro para chegar,
A nenhum destino traçado,
Corro apenas para fechar,
E não ser esmagado.
A roda continua a girar,
O corpo continua a andar,
Sem tempo para parar,
Sem forças para mudar.
Mão pesada na parede,
Sigo sem ter direção,
O corpo morre de sede,
Na força da produção.
O silêncio do fim do dia,
Não traz a paz que pedi,
Perdeu-se toda a energia,
Na vida que já perdi.
Já não corro para chegar,
A nenhum destino traçado,
Corro apenas para fechar,
E não ser esmagado.
Amanhã é a mesma cena,
O mesmo passo no chão,
Cumpro a minha própria pena,
Sem ter uma salvação.
Se a corrida não tem meta,
E o cansaço é a lei,
A minha conta está certa,
Na vida que não vivi.