Sem Ter Trégua Nem Recreio

Alexandre Reis
0 Views
Vender as horas do dia, Trocar o tempo por pão, E ver que a pouca quantia, Não chega para a nação. A vida mede-se em euros, O peito mede-se em dor, Perdem-se os velhos desejos, Diante deste motor. A inflação é uma sombra, Que come o nosso suor, Nesta rotina que assombra, Sem horizonte melhor. Paga-se o teto e a luz, Paga-se a água do chão, Nesta cruz que nos conduz, À mais pura privação. Nenhum tiro se escuta, Não há sangue no salão, Mas a violência da luta, Aperta o nosso coração. A conta não bate certo, E o mês vai a meio, Perdido neste deserto, Sem ter trégua nem recreio. Trabalhar só para pagar, O direito de existir, Ver o tempo a passar, Sem conseguir evoluir. O papel reflete a pena, Que o sistema nos deu, Fechou-se a última cena, Do sonho que se perdeu. Sobram dias no calendário, Falta força na carteira, Neste aperto quotidiano, Nesta vida passageira. A matemática é uma lei, Que não sabe de empatia, Neste caminho que andei, Perdi toda a poesia. A conta não bate certo, E o mês vai a meio, Perdido neste deserto, Sem ter trégua nem recreio. Trabalhar só para pagar, O direito de existir, Ver o tempo a passar, Sem conseguir evoluir. O banco manda o aviso, O prazo volta a fechar, Perdeu-se todo o sorriso, A tentar economizar. Um mês atrás do outro, Numa corrida de dor, Onde o ganho é tão pouco, E o custo é tão maior. O luxo virou chegada, A dignidade é um preço, Nesta vida encurralada, Onde eu não me reconheço. A conta não bate certo, E o mês vai a meio, Perdido neste deserto, Sem ter trégua nem recreio. Trabalhar só para pagar, O direito de existir, Ver o tempo a passar, Sem conseguir evoluir. O saldo fica a zero, O ciclo vai recomeçar, Neste destino severo, Que não sabe perdoar. Se o tempo é a moeda pura, Que nos devia libertar, Esta vida é a prisão dura, Que nos obriga a pagar.