Sem Ter Trégua Nem Recreio
Vender as horas do dia,
Trocar o tempo por pão,
E ver que a pouca quantia,
Não chega para a nação.
A vida mede-se em euros,
O peito mede-se em dor,
Perdem-se os velhos desejos,
Diante deste motor.
A inflação é uma sombra,
Que come o nosso suor,
Nesta rotina que assombra,
Sem horizonte melhor.
Paga-se o teto e a luz,
Paga-se a água do chão,
Nesta cruz que nos conduz,
À mais pura privação.
Nenhum tiro se escuta,
Não há sangue no salão,
Mas a violência da luta,
Aperta o nosso coração.
A conta não bate certo,
E o mês vai a meio,
Perdido neste deserto,
Sem ter trégua nem recreio.
Trabalhar só para pagar,
O direito de existir,
Ver o tempo a passar,
Sem conseguir evoluir.
O papel reflete a pena,
Que o sistema nos deu,
Fechou-se a última cena,
Do sonho que se perdeu.
Sobram dias no calendário,
Falta força na carteira,
Neste aperto quotidiano,
Nesta vida passageira.
A matemática é uma lei,
Que não sabe de empatia,
Neste caminho que andei,
Perdi toda a poesia.
A conta não bate certo,
E o mês vai a meio,
Perdido neste deserto,
Sem ter trégua nem recreio.
Trabalhar só para pagar,
O direito de existir,
Ver o tempo a passar,
Sem conseguir evoluir.
O banco manda o aviso,
O prazo volta a fechar,
Perdeu-se todo o sorriso,
A tentar economizar.
Um mês atrás do outro,
Numa corrida de dor,
Onde o ganho é tão pouco,
E o custo é tão maior.
O luxo virou chegada,
A dignidade é um preço,
Nesta vida encurralada,
Onde eu não me reconheço.
A conta não bate certo,
E o mês vai a meio,
Perdido neste deserto,
Sem ter trégua nem recreio.
Trabalhar só para pagar,
O direito de existir,
Ver o tempo a passar,
Sem conseguir evoluir.
O saldo fica a zero,
O ciclo vai recomeçar,
Neste destino severo,
Que não sabe perdoar.
Se o tempo é a moeda pura,
Que nos devia libertar,
Esta vida é a prisão dura,
Que nos obriga a pagar.