Procuro O Olhar Alheio
Publico a minha foto,
Para ver quem vai olhar,
Neste espaço tão remoto,
Onde tento me mostrar.
Atualizo a minha página,
A cada segundo a ver,
Nesta luz que me alucina,
Sem conseguir conter.
Procuro a aprovação,
Num coração digital,
Que me enche o salão,
De forma tão irreal.
Se o número não sobe,
Sinto a vida a cair,
Nesta teia que me engole,
E não me deixa sair.
Um clique para validar,
O meu valor neste chão,
Fico a noite a esperar,
Por um gesto sem razão.
Procuro no olhar alheio,
A prova que existo eu peço,
Neste vazio tão cheio,
Onde me vendo e me meço.
O ecrã brilha na mão,
Mas o peito continua,
Preso nesta ilusão,
Nesta mente que é tão sua.
Mostro o riso decorado,
O cenário mais perfeito,
Escondendo o meu lado,
Que carrega este defeito.
Vendo a vida em vitrine,
Para a plateia aplaudir,
Mas ninguém que me ilumine,
Me ensina a sorrir.
Conto as vistas no ecrã,
Meço a minha importância,
Nesta busca que é tão vã,
Que me aumenta a distância.
Procuro no olhar alheio,
A prova que existo eu peço,
Neste vazio tão cheio,
Onde me vendo e me meço.
O ecrã brilha sem chão,
Mas o peito continua,
Preso nesta ilusão,
Nesta mente que é tão crua.
Luz azul na minha cara,
Alimenta este motor,
Esta busca nunca para,
Para esconder a minha dor.
Se desligo a aplicação,
Fico a sós com o meu fim,
Sem saber se esta nação,
Ainda se lembra de mim.
Mapeei a minha vida,
Em função do que agrada,
Esta conta está perdida,
Nesta marcha alucinada.
Procuro no olhar alheio,
A prova que existo eu peço,
Neste vazio tão cheio,
Onde me vendo e me meço.
O ecrã brilha sem chão,
Mas o peito continua,
Preso nesta ilusão,
Nesta mente que é tão crua.
Notificação a entrar,
Sinal de vida a bater,
Tudo para disfarçar,
O medo de desaparecer.
Quando a luz se apagar,
E o ecrã ficar escuro,
Quem me vem validar,
Neste mundo tão duro?