Nesta Marcha Sem Saida
Digo que sim a toda a gente,
Aceito a carga do irmão,
E guardo o peito doente,
Sem saber dizer que não.
Carrego o peso alheio,
Com receio de falhar,
Neste aperto tão cheio,
Onde me vou anular.
Para não ver um desgosto,
Para manter a amizade,
Escondo a dor do meu rosto,
E mato a minha vontade.
Faço o favor pedinte,
Dou o tempo que é meu,
Nesta corrida acinte,
Onde a razão se perdeu.
O medo do julgamento,
Faz-me aceitar o calvário,
Aumentando este lamento,
No meu peito solitário.
Para não desiludir ninguém,
Destruo a minha vida,
Aceito o peso que vem,
Nesta marcha sem saída.
Digo que sim para fora,
Enquanto grito por dentro,
A minha alma chora,
No meio deste tormento.
Fiquei sem margem no dia,
Fiquei sem tempo pra mim,
Nesta falsa cortesia,
Que me empurra para o fim.
Sou o alicerce dos outros,
A ponte por onde passam,
Enquanto estes poucos,
No meu cansaço se abraçam.
A paciência esgotou,
Mas o braço continua,
O corpo que se vergou,
Nesta promessa tão sua.
Para não desiludir ninguém,
Destruo a minha vida,
Aceito o peso que vem,
Nesta marcha sem saída.
Digo que sim para fora,
Enquanto grito por dentro,
A minha alma chora,
No meio deste tormento.
Ninguém me pergunta a dor,
Ninguém me pede licença,
Perdi o meu próprio valor,
Nesta servidão densa.
Dizer não é o resgate,
Que o meu peito precisa,
Antes que o meu corpo me mate,
Nesta frágil camisa.
Largo a pedra dos outros,
Que nunca foi minha lei,
Nesses passos tão poucos,
Onde me anulei.
Para não desiludir ninguém,
Destruo a minha vida,
Aceito o peso que vem,
Nesta marcha sem saída.
Digo que sim para fora,
Enquanto grito por dentro,
A minha alma chora,
No meio deste tormento.
Aprende a fechar a mão,
Aprende a impor o limite,
Salva o teu próprio chão,
Antes que a força se esmite.
O primeiro "não" vai doer,
Mas vai-me libertar,
Para eu poder viver,
Tenho de me respeitar.