A Invasão que Falhou na Conjugação
Espanha olhou p'ra cá um dia
território, glória, ambição.
Mas antes de entrar na via,
pediu um curso de expressão.
"Que verbo é este, sem sentido?
'Tinha sido estado a fazer?'"
"É algo que já tinha ido
antes de começar a ser."
Anotaram, consultaram,
mandaram pedir reforço.
Recuaram — e calaram.
O verbo venceu sem esforço.
Portugal não precisou de espadas,
não ergueu muralha nem canhão.
As frases foram as emboscadas.
O subjuntivo foi o trovão.
A invasão não foi vencida,
No canhão ou no metal.
A Espanha deu-se por perdida,
No subconjuntivo original.
“Se tivéssemos estado a vir”,
Disse o luso ao castelhano.
O outro só quis fugir,
Com um curto-circuito no crânio.
"Se tivéssemos estado a poder vir,
teríamos conseguido avançar..."
O general desistiu de prosseguir.
"E foi-se embora ao jantar."
Reuniões paradas no pretérito,
ordens presas em conjugação.
Cada oficial perdeu o crédito
tentando achar a conclusão.
Portugal não precisou de espadas,
não ergueu muralha nem canhão.
As frases foram as emboscadas.
O subjuntivo foi o trovão.
A invasão não foi vencida,
No canhão ou no metal.
Pobre tropa confundida,
Pela gramática de Portugal.
Consta no relatório final,
escrito em letra tremida e pequena:
"A língua portuguesa é fatal.
Recuamos. Boa noite. Cena."
Pretérito mais-que-perfeito,
Deixou o invasor desfeito.
Se a língua é nossa proteção,
Quem precisa de um canhão?